Já faz um certo tempo que eu era convidado para um domingo acompanhar alguns amigos cachoeiristas até local onde eles costumam visitar ao menos uma vez em cada verão, o Rio Araraquara, mais facilmente acessado por Garuva. O caminho inicialmente tem o destaque de bela visão "traseira" da Pedra Branca do Araraquara, que como primeiro azar do dia, estava parcialmente encoberta. Após pouco mais de 2km andando por entre um bananal, chegamos na sua extremidade onde a trilha começa, com sinais de consolidação antiga mas que certamente não recebe muitas pessoas. Cometi o erro de achar que a trilha dispensaria o facão e a perneira (embora a perneira em meio que esqueci no carro) e ainda estando de calção, algo que geralmente evito mas fiquei sem alternativa por ter molhado a calça na Cachoeira do Rio Capivari no dia anterior, acabei cortando bastante a perna na mata, sendo o segundo azar. Acabei ficando na frente por ser o único com tracklog do trajeto que me foi enviado, e assim ainda tive o terceiro azar de ser atacado por duas vespas que deram dolorosas picadas no braço e nas costas. A trilha do dia ainda teve mais dois detalhes: Estávamos acompanhado por um senhor de mais de 60 anos, detentor de uma vida de diversas caminhadas mas que veio convencido da suposta simplicidade do trajeto, já que sua idade e estado físico não eram adequados para qualquer perrengue, e também pelo filho de uma das mulheres que nos acompanhava, que além de ter apenas 6 anos, ainda parecia possuir algum nível de alteração psicológica ou cerebral, ali demonstrado por um nervosismo atípico frente á qualquer dificuldade mínima do percurso. Acabou ficando por nossa responsabilidade ajuda-los nas dificuldades que o trajeto acabou tendo.
Aproximávamos do rio onde já deveríamos descer quase de encontro com a primeira cachoeira. As cachoeiras deste trajeto são pequenas, mas a verdadeira razão da visita é o tamanho dos poços de água perfeitos para mergulho, e principalmente a tonalidade esverdeada da água, que poderia variar desde um verde mais claro até um forte verde esmeralda, como estava em uma das visitas deles até o lugar.
A descida até o rio teve certa cautela mas chegamos rapidamente, bem no ponto da primeira cachoeira, que possui um longo poço esverdeado. O sol estava tímido e assim não propiciava o melhor dos cenários. Subimos pela sua lateral esquerda tendo que abrir trajeto com as mãos e os pés, em área bem escorregadia, suja e fechada, mas a segunda cachoeira estava logo acima. De formato diferente e em área mais aberta, a dificuldade era passar para cima dela, já que agora ambas as laterais não eram boas, sobrando a única opção subir por suas paredes de pedra, seguras desde que com cuidado, para seguir adiante. A dificuldade foi garantir apoio e segurança para a criança e principalmente para o senhor, que com o seu peso e cansaço que ali já se demonstrava, tinha enorme dificuldade para subir mesmo com nossa ajuda. Dali para cima foi mais um desvio pela mata fechada, mas que certamente foi aquela utilizada por eles anteriormente, até descer novamente no rio e subir até a terceira e principal cachoeira. Ao chegar nela, minha parceira me surpreende ao se jogar diretamente sobre a água, ignorando todo o seu histórico de "friurenta" para aliviar o calor e a coceira. Ali muito nós desfrutemos, e o sol passou a fazer mais companhia compensando finalmente a atividade. Eles haviam citado a existência de mais uma cachoeira acima, mas que não me interessou já que eles mesmos citavam não valer muito a pena, e também pela preocupação de fazer uma boa volta. Havia a opção de voltar por um tal caminho que partiria da margem mais próxima da terceira cachoeira e fazer uma "barriga" até chegar á um trecho bem anterior da nossa trilha, coisa que até exploremos já que havia a promessa de encontrarmos uma trilha ou uma estrada não muito distante, mas que conforme avançamos, ficou claro para mim que seria outro arrependimento o qual já tinha experiências o suficiente para desconsidera-lo: o de voltar por um caminho "melhor" para evitar um caminho que apesar das dificuldades, o abrimos e percorremos com êxito. Tal coisa me ocorreu no Salto do Inferno/Feitiço, e nos morros laterais da Serra do Capivari. Naquelas vezes, quando percebi a merda, já estava muito longe e preso ao dilema de insistir de vez no erro ou retornar o trajeto de ida que ficara ainda pior com este acréscimo. Por sorte minha decisão não foi contestada e até que retornamos até a cachoeira 1 rapidamente, já havíamos aberto bem os trechos com mata, embora o senhor estivesse visivelmente exausto. Faltava apenas a subida da Cachoeira 1 para a trilha para darmos como praticamente ganha a volta, que é quando meu amigo resolveu insistir por um atalho, porém íngreme, para subir o barranco. Nessa subida a minha companheira teve o susto de ter deslizado o barranco quase até embaixo quando já estava quase que subido por inteiro, não achando quase nenhum apoio durante a queda e sendo salva por mim e por outra colega, e depois disso uma pedra ainda deslizou do barranco vindo á acertar a canela do senhor que reagiu com um doloroso grito, assustando-nos e tendo que esperar ele se recuperar da dor para ainda ajuda-lo a subir com bastante dificuldade. Oque era para ser um passeio bem tranquilo, não foi. Chegamos no bananal com o dia encerrado e retornamos bem para a casa para encarar o último azar, os carrapatos que ainda por cima coletei estando á frente.