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Morros Laterais da Serra do Capivari

 Na primeira vez que eu fui até o Capivari IV, chamou-me a atenção morros que estavam próximos de uma crista que descia do Capivari Mirim (e que utilizei para uma ascensão dele este ano), e o último dele estava já próximo da crista do Capivari V/IV. Na época, pensei que uma futura ida até eles seria interessante partindo do cume do Mirim, posteriormente cogitei acessa-los pela trilha até o Capivari V que parte de próximo da rodovia, mas após utilizar o Rio Capoeira para chegar até a cachoeira maior deste rio, localizada já bem próximo do cume do primeiro morro, resolvi que seria por ali o meu trajeto, cogitando apenas em último caso, utilizar da trilha do Capivari V após chegar ao último dos morros á princípio sem nomes.
 Após uma semana emocionalmente perturbada, e uns ataques á morros no final de sábado em Itaperuçu, era quase zero a disposição de uma empreitada solo dessa. Mas dei uma chance de chegar lá e subir considerando largar tudo caso me visse fora de energia para isso. Mas chegando lá, parando o carro perto da igreja e passando das primeiras cachoeiras do rio (as mais próximas do estacionamento particular) acabei me revigorando um pouco pela paz do ambiente e pela facilidade que estava seguir o rio acima pelas laterais. Pelo jeito o lugar está sendo mais frequentado, com uma trilha quase que consolidada rumo á cachoeira maior. Como a mata não é muito densa, é difícil consolidar um caminho próprio, já que quem por lá passa geralmente faz seu próprio traçado. Mas ao mesmo tempo, acabaria sendo instintivo seguir pelo caminho mais cômodo, razão pela qual o caminho está mais caracterizado em comparação com a última vez que lá estive. Há uma primeira travessia de rio onde assim como na última vez eu resolvi fazer e seguir um pouco pelo seu leito, mas ao final dele já estava na trilha novamente, há um trecho que é necessário subir por uma rocha cheia de raízes onde a trilha some, passando periodicamente próximo a cascatinhas, e em certo ponto, já bem próximo da maior, parece que a trilha dá lugar para uma última subida pelo leito do rio, antes de entrar na mata novamente de onde já se ouve e logo avista-se a cachoeira. Cheguei nela em pouco mais de uma hora, bem menos que as duas que levei no começo do ano, embora lá houveram mais paradas devido ao calor e aos registros das demais cachoeiras.
 Nem me aproximei da cachoeira maior, partindo imediatamente para dentro da sua lateral direita, onde na minha ida anterior, cavei por ali meu caminho para cima para passar por cima da maior sentido o rumo do mirim, caminho oposto ao que tomaria hoje, mas que inicialmente utilizaria desse mesmo trecho. Embora já tivesse fechado, deu para perceber que já foi útil eu ter inclusive errado naquela vez a entrada e varado mato um pouco mais acima que o necessário, por sorte, reduzindo esforço desta vez. Mas ainda havia facão para bater, embora logo a dificuldade migrasse para o mato longo, cortante e cruzado que havia acima, onde a imagem por satélite da vegetação verde começa a se mesclar com a amarelada. Esses trechos são mais íngremes, e assim o cansaço que parecia ter dado uma trégua começa a aparecer com força. Havia alguns indícios de alguma eventual passagem no mato morto no solo em alguns pontos, oque não foi uma grande surpresa, visto que algum morador próximo eventualmente deve ter visto o mesmo que eu nestes morros.
 Em certo ponto, a subida vira caminhada, e contorno o cume por um caminho mais cômodo, apenas marcando com facão a árvore mais próxima de onde eu subi já pensando numa possível volta por ali, e chego no cume do primeiro morro. Eu esqueci de citar que o dia estava um tanto broxante. A previsão era nublado com talvez uma melhora ao decorrer da tarde, e ali, as nuvens baixas cobriam quase todo o visual, dando algumas brechas de vez em quando, felizmente principalmente em direção do objetivo final. Fiz um lanche rápido para amenizar o cansaço e parto rumo ao segundo cume. Para chegar até ele eu havia traçado dois possíveis caminhos, o mais óbvio seria descer a crista deste que eu estava para chegar até a crista do vizinho, onde os dois muito convenientemente se encontram. Como visto por satélite, seria um trecho de vegetação mais baixa e de rápida progressão, embora seja necessário cuidado com a pisada. A segunda opção era varar mato reto entre os cumes, mas já imaginava o vale que haveria  e o trabalho que poderia ser principalmente no começo e no final, e presencialmente deu para ver que o vale era ainda maior que o imaginado. Cheguei até o final da primeira crista sem dificuldades, e ao me aproximar da segunda, dei de cara com um aviso do que seria um sério problema mais tarde, com uma vegetação espinhosa em determinado ponto, dolorosa no menor contato, com espinhos grandes e perigosos, ainda que fosse por sorte poucos metros deste problema. A segunda crista foi fácil de subir, incomodado apenas pela fraqueza, mas consegui chegar ao cume do segundo morro, com um visual melhor que o primeiro, e também com o clima mais aberto, onde só tomei uma água, conferi o último morro agora já de perto e parti rumo á ele.
 Logo no começo fiquei impressionado pela trilha que encontrei. Era aberta demais para um morro tão periférico. No fim daquele pequeno vale havia uma clareira com muitas fezes, deixando claro que aquele caminho, e os demais que eu encontraria adiante, seriam de algum animal grande. A subida do último morro foi mais um trepa pedra e agarra mato, rumando um tipo de fenda que existe na forma do morro já bem próxima do cume. Ao chegar lá, fiquei contente com o sucesso da investida, e por ter superado a fraqueza emocional e física, e em menos tempo que o esperado (cerca de 3:30h, sendo que eu esperava chegar em 4h). Vendo a proximidade que eu estava da crista do Capivari V/IV, decidi mudar deixar os planos de voltar por onde eu havia vindo e atravessar essa crista de ligação até lá, e descer com tranquilidade por aquela até as casas mais abaixo, e voltar ao ponto de parada pela rodovia. Avisei a minha mulher deste plano (sinal nos cumes era bom), e após umas filmagens, parti aproveitando o máximo do trecho de mata baixa que ainda restava. Tava tudo indo bem demais.
 Acontece é que aqueles espinhos que eu havia encontrado antes eram realmente um presságio. De um ponto adiante quase surgiam barreiras intransponíveis de espinhos, onde o facão apenas com muito esforço conseguia aliviar e para isso eram muitas as espinhadas no braço onde inclusive alguns acabaram se alojando. Eu percebia que rumo á mata mais encoberta eles tendiam a diminuir, chegando até mesmo a desaparecer, mas para lá haviam alguns barrancos que preocupavam um pouco. Conforme ia avançando com dificuldade, a situação se demonstrava a mesma, me colocando na situação de "já vim até aqui, vale mesmo voltar?" e sempre que havia algum trecho onde eu progredia mais rapidamente, acabava num obstáculo espinhento pior que o anterior. Ironicamente, o azar de outras investidas foi a sorte desta, pois ao chegar num bambuzal é que pude usar da idade da sua vegetação para transpor mais facilmente e ainda utilizar alguns vincos secos de água para não me afastar muito da rota. Era necessário se manter na rota desta crista pois ir muito para a esquerda me levaria ao paredão rochoso vertical do Capivari V, como também se eu fosse muito para a direita. 
 Aquelas grandes pedras e o mato amarelo usada como apoio para subir a lateral da crista eram sim um alívio após o cansaço psicológico que bateu na última 1:30h desde a saída do último cume. Mas sem antes pagar mais alguns pecados, com uma das piores câimbras que já me deram em trilhas. Já estou acostumado, mas essa resolveu aparecer com força bem no momento em que eu havia enfiado o pé num solo de raízes fracas, fazendo a câimbra vir sem nenhum freio. Aliviado o problema e enfim na trilha, utilizei da certa comodidade dela para descer, embora surpreso como o caminho anda um tanto fechado desde que eu fiz a Travessia dos Capivaris. Chegando na rodovia, mais meia hora andando até o carro. Exausto, bem dolorido, mas feliz comigo mesmo. Contornei o cansaço e quaisquer fossem as barreiras visando o horizonte, quatro vezes consecutivas. Na chegada na trilha do V, o céu se abriu para a minha fotossíntese semanal e para que a represa do Capivari refletisse a luz nos becos laterais da crista, e já ao final, o sol descia fortemente alaranjado e nítido no horizonte. Uma última recompensa na meritocracia incerta desse solitário montanhismo.