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Cachoeiras do Rio dos Macacos e Salto Caninana

 Passar mais de uma semana inteira acima dos 30º em pleno inverno, e com novembro - quando normalmente declararia encerrada a temporada de montanha - já bem claro no horizonte, acaba me convencendo á virar a chave e passar o tempo ocioso dos domingos com aventuras mais adequadas á estação que resolveu chegar antes que a carroça.
 Parto cedo rumo á Morretes, e sou o segundo das vagas na rua perto do IAP á estacionar. Assim, o dia já começa bom. Ir para o Salto dos Macacos é uma experiência que há tempos tenho interesse em repetir, tanto porque foi uma das primeiras trilhas que fiz por aqui, não bem um dos primeiros, mas definitivamente o primeiro para uma queda de água. O Salto dos Macacos não é qualquer lugar, quem o conhece, sabe todos os motivos pelo qual o lugar é realmente diferenciado. Embora, claro, demasiadamente mal frequentado. Seria até pedir demais se não fosse.
 A trilha é como eu me lembrava. Com o solo já acostumado á constante encharque dos calçados que por ali passam, devido ás 3 travessias de rio e um riozinho menor, que adequam o corpo á "refrescante" água da serra. Mas ao chegar na travessia do último rio, o próprio Rio dos Macacos onde mais acima se encontram os belos Saltos Redondo e dos Macacos, é que deixo a trilha para subir o rio acima. O destino são duas cachoeiras vistas por satélite, e uma terceira, que o meu colega Jean também publicou recentemente. A primeira estava pouco mais de 250 metros adiante, e os cachoeiristas sabem que 250 metros é um número por si só muito vazio de perspectiva.
 Mas já no início ficou claro que o rio era ruim de ser subido por conta de seus obstáculos, a margem direita era íngreme e desuniforme, mas a margem esquerda demonstrava ser de fácil progressão. Ela foi de ajuda até grande parte, alternando em alguns trechos com uma subida pelo leito do rio. De longe avisto uma enorme rocha que formava a longa e inclinada cachoeira, não formando a forma mais característica delas, mas uma corredeira turbulenta pela sua lateral, que somado á sua extensão, acaba por criar esse "conceito", terminando também em sua base com outra queda de água que culminava em uma pequena piscina.
 Na lateral direita dela surge um caminho quase que uma trilha natural, mas sim uma rampa por onde a vegetação acabou não se adaptando, tornando-o ao menos útil. Por ela chego até a metade da enorme "cachoeira", e dali avisto que em seu topo havia coisa interessante. Era uma opção me rastejar com muito cuidado e com o máximo possível de aderência até lá, usando de alguns poucos vãos na rocha e alguns matos para dar apoio, mas escorregar oferecia risco demais. Então vi uma espécie de vão lateral que eu poderia usar. Desci até sua base e o subi, e mais adiante, consegui achar um caminho para o tal lugar no topo. Lá valeu a pena chegar, e não foi tão complicado. Tinha cara de que ali já tinha seus frequentadores. 
 Me afasto dela e para chegar até a próxima cachoeira acima eu teria que desviar de um paredão que separa a primeira cachoeira da segunda. Eu sabia que a trilha do Salto dos Macacos estava próxima, mas não esperava chegar nela com tanta facilidade. Há uma discreta ligação aberta entre as duas e um tanto naturalmente formada. Volto um pouco e vou andando no barranco lateralmente já imaginando que á essa altura não seria de muita surpresa encontrar uma ligação com a segunda cachoeira, até que encontro uma trilha que leva até o rio novamente. Pouco mais para baixo dali está a cabeceira da segunda queda, menor e um tanto semelhante com a primeira, mas sem nenhum lugar de observação muito favorável, e aparentemente nenhuma forma de chegar á sua base se não for sendo levado pela gravidade após uma escorregada fatal. Esqueci de citar antes, mas esse é um rio de rochas consideravelmente lisas, mesmo as mais altas que não ficam em contato constante com o rio. Ligo o drone e registro as 5 cachoeiras do rio.
 Pouco acima da segunda está a terceira, agora sim mais do tipo convencional, com um poço cristalino e convidativo. Ela está já bem próxima do Salto Redondo, e com dificuldade devido ao qual liso são as rochas, consigo vencer as últimas lajes e chegar na base do Redondo "por baixo". A chegada emoldurada foi sensacional. 
 É rápido para subi-la pela margem direita pela trilha até chegar no prato da casa. O Salto dos Macacos observa do alto uma sequência de piscinões sem igual na serra do mar paranaense. O lugar já estava um tanto cheio, mas não parava nem por um minuto de chegar mais. No chutometro, estimo que havia cerca de 200 pessoas lá simultaneamente. Mesmo assim, ainda dá para aproveitar, dar um mergulho e se sentir novo e um pouco mais limpo. Já que estava lá, aproveito para subir no topo do Salto dos Macacos, subidinha um pouco cansativa para quem tinha acabado de relaxar a panturrilha na água, mas como eu tinha ouvido falar que lá a vista era consideravelmente melhor que a debaixo, fui conferir. Eu, particularmente, não vi uma diferença justificável... 
 Eu tinha mais alguns planos para o tempo restante no dia, sabendo que a previsão era nublar com força até o final de tarde. Mas por enquanto o sol castigava de uma maneira que eu não havia presenciado nem em dias ferozes em pleno verão. O termômetro marcava 39º, mas com uma sensação térmica que facilmente passava de insuportáveis 45º nas ruas quentes do centro de Morretes. Peguei uma bebida gelada para acompanhar o breve almoço e me mandei de lá. 
 Apesar da relativa proximidade da área urbana, o salto caninana parece ser conhecido apenas bem localmente. Localizado no bairro América de Cima, caminha-se cerca de 800 metros na linha de trem até passar por cima de uma pequena ponte por cima do rio que á forma próximo dali. Fui esperando uma mata fechada e encontrei "quase" um campo aberto". Se lá fosse para ser um campo de Airsoft, faltariam obstáculos. Após passar por um riacho, o próximo se encontra pouco adiante, e basta subi-lo um pouco pela sua trilha lateral para ao destino. 
 Quando retornei aos trilhos, o dia mudou da água para o vinho. E eu nunca quis beber tanto um vinho: Eu devia estar distraído na mata enquanto o céu cobria-se de nuvens, e até dando uma pancada de chuva pouco antes de eu chegar no carro. Já imaginei que com isso a massa de pessoas que lotara Morretes nesse domingo iam se mandar logo rodovia acima, então fui antes e ainda que já com um pouco de trânsito, saí do vespeiro. Ao julgar pela consulta posterior no Maps, uma escolha acertada que me poupou as 3 desgastantes horas de viagem que viriam com qualquer outra decisão.