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Castelo dos Bugres e Cachoeiras do Cubatão e do Rio da Prata - Joinville

 Após mais uma semana adiando objetivos montanhisticos pela falta de uma companhia adequada para faze-los, e não só por isso um pouco desanimado com este estilo de vida, opto por fazer algo um pouco mais leve e focando na recompensa, um pouco fora dos planos, pelo menos para a temporada de inverno, e um pouco fora das regiões de sempre, não tão diferente, mas já diferente. É o caso de Joinville e suas poucas mas enormes cachoeiras, objetivo que ficaria para esse próximo verão mas que resolvi adiantar. Uma oportunidade de relembrar um estilo meu de viagem solo que visa aproveitar o máximo possível de uma região, adaptando-se da melhor maneira aos imprevistos e ao tempo disponível. A minha última nessa pegada foi no mês de Abril, na Cachoeira do Garrador e alguns outros pontos de Tijucas do Sul.
 Parti cedo e cheguei até Fazenda Rio Grande para pegar a 116 até chegar em Areia Branca do Assis, para dali guinar sentido Campo Alegre. O primeiro objetivo do dia era a Cachoeira do Cubatão, antes de descer a Serra Dona Francisca. O Google Maps indicava como principal opção ir pela 101, mas ir pela 116 pouparia cerca de 30km de distância e toda a subida da serra, em troca de apenas 10 minutos adicionais de viagem e uma diferença mínima de pedágio.
 Eu estava ansioso para saber se ia conseguir acessar a trilha, já que os tracklogs partiam de dois pontos: O mais usado seria por dentro de uma propriedade domiciliar á beira da estrada, mas de tracks que não tinham mais nenhuma informação a respeito, e todos já com alguns anos de publicação. Visto por imagens antigas de satélites, é dali que parte uma antiga estreita estrada de chão, coisa de várias décadas atrás, agora quase imperceptível por imagens recentes. A outra opção, de onde parte apenas dois dos tracklogs, é de um Clube de Campo, talvez um condomínio, de onde partem dois tracks de sua extremidade, que logo se ligam com a trilha que vem daquela outra, poupando boa parte da caminhada. Não dava para ter certeza pelo Street View se teria portão na entrada, e ao chegar constatei que tinha, sem nenhum interfone para alguém que eu pudesse falar. Invadir não era uma opção nem aqui e nem no outro. Fui até a casa onde partia a maioria dos tracklogs, e infelizmente ninguém havia atendido, mesmo após uma boa espera. Como ainda era 9h da manhã, pelo menos dava para tentar passar mais tarde.
 Parti para o plano B, o Castelo dos Bugres. Eu já havia feito essa trilha, lá no começo, e tinha boas lembranças e pouquíssimas fotos. Lembro como era uma trilha fácil e relativamente curta, recompensada por um belo visual e eu sabia que havendo a oportunidade eu gostaria de refaze-la, então já havia á inserido como um plano B. A trilha começa de uma área que serve como estacionamento logo á beira da rodovia, do tipo de entrada que precisa ir devagar e com atenção para não perder ou causar um acidente com alguém saindo. Da última vez que eu estive ali algumas coisas mudaram. Costumava haver um senhor que morava ou trabalhava numa casinha improvisada ali, cuidando do estacionamento, como também uma placa com informações do local e da região, e ambos não estão mais lá. Agora, no começo da trilha, áreas foram abertas onde agora moram indígenas, talvez com alguma relação aos chamados Bugres que habitavam essa região no passado e de onde o nome do Castelo se refere. Visto por satélite, percebe-se que são todos posteriores á 2021.
 Resolvi passar na cachoeira da trilha, uma pequena mas útil, para encher a garrafa de água que veio vazia de casa. Como a trilha é uma das principais escolhas do público Joinvilense para hiking, ela é bem aberta e como de costume estava bem frequentada, sendo aparentemente bem característico também a constância de áreas um pouco barrentas por boa parte do percurso. Só isso para frear um pouco um ritmo ainda maior, já que o pouco desnível e a folga de sombra favoreceriam uma velocidade média maior. É só no que se aproxima do cume, após cerca de 2km de trilha, que a subida passa a fazer parte, mas sem muita intensidade. É também quase no final da ida que observa-se uma discreta bifurcação em certo ponto, este que é uma trilha que liga-se com a trilha do Morro Pelado. Mas ao contrário dali, esta outra liga-se com uma parte ainda um tanto no começo da aproximação mais extensa do Pelado, mas ainda sendo uma opção interessante para quem pretender passar em ambos no mesmo dia.
 Logo antes do "cume" chega-se a uma pequena área de camping, quando faltam apenas poucos passos até final. Após estes passos a trilha se bifurca, sendo que fui logo para a direita, onde encontra-se a subida com corrente para o topo da rocha mais alta, onde o visual se revela por inteiro. A subida apenas não fornece muita aderência para os pés, mas é fortemente recompensadora. Dali enxerga-se a Serra do Quiriri, a Serra do Saí (a qual pertence o Cantagalo, embora não possa ser visto), o Morro da Tromba, o Morro Cubatão, o Pelado (o mais próximo e o mais exuberante), o Jurapê e o Central, os Picos Jaraguá/Meio/Boa Vista em Jaraguá do Sul, e muitos outros na região geralmente sem nomes ou com cumes encobertos e sendo assim não visados pelo montanhismo catarinense, como também a cidade de Joinville ao fundo. 
 Parti dali e rapidamente estava no estacionamento novamente. Foi 1 hora para ir e 40 minutos para voltar, e resolvi passar novamente na casa que dá acesso á cachoeira, para ver se dessa vez eu daria sorte. Logo que cheguei já dei de cara com o caseiro no portão, disse a minha intenção e ele inicialmente não demonstrou interesse em permitir o meu acesso, citando que a trilha passa por propriedade particular alheia e que lhe foi orientado não permitir mais o acesso. Mas por ver que eu não era dali, que estava sozinho e que disse que seria algo o mais rápido possível e que não pretendia passar tempo á toa lá, resolveu abrir uma exceção. Ele apenas disse que a trilha estaria "suja" oque eu não perguntei ao que ele exatamente se referia, se era que ela estaria só com obstáculos ou que ela estaria fechada no trecho em que deixa de usar a antiga estrada encoberta.
 Vendo os tracklogs disponíveis, percebia-se que muitos acompanhavam o traçado da antiga estrada até chegar numa parte bem mais acima do rio e posteriormente retornavam e iam até a cachoeira por uma trilha que partiria dessa estrada, e que mais adiante se bifurcaria entre uma que iria para a parte de cima da cachoeira, onde a visão seria obviamente um tanto limitada devido a verticalidade da queda e ausência de pontos laterais, e outro caminho que ia próximo da extremidade de um dos paredões laterais, onde seria possível ver também apenas parte da cachoeira. Eu imaginava que as pessoas seguissem até a estrada até aquele ponto mais distante e acima do rio talvez por ser algum ponto bom para banho ou algo do tipo, mas lá ficou evidente que a forma como a estrada se curva não deixa evidente de que na verdade passa-se a distanciar-se do objetivo, coisa que notei imediatamente e que assim pude evitar a perca de tempo. Na mata identifiquei o começo da trilha, um pouco fechada inicialmente. Mas dali em diante acabei perdendo um pouco sua marcação, justamente pela vegetação rasteira impedir um pouco uma melhor visualização, mas como era de fácil progressão, segui á diante seguindo o gps até bem próximo da bifurcação que eu tomaria para ir na parte de cima da queda. Não me interessava aquele outro mirante, já que certamente a única e melhor visão que eu teria seria após levantar o drone á partir da parte superior.
 Vale nesse ponto o aviso para se ter um certo cuidado ao ir além deste ponto, pois identifiquei 2 trilhas que parecem estarem levando até o ponto certo, mas passam a ir um pouco mais para a direita (leste), e de onde se tem a impressão de se ver o rio atrás das árvores ao fundo, quando na verdade realmente se vê, mas a parte de baixo do rio, após a cachoeira, sendo assim logo eu estaria á beira de um precipício caso prosseguisse, e pela inclinação e forma do solo, talvez houvesse risco de um acidente fatal ali. A minha ansiedade certamente não se limitava a consegui o acesso mas muito também a não tornar um belo domingo como aquele o dia de minha morte, assim como nenhum outro, sendo assim necessário zelo suficiente que permita cumprir meus objetivos de aventura e voltar para casa ainda vivo.
 Após retornar duas vezes em busca do caminho correto, e após seguir á risca o gps/tracks que ao menos mostrou-se mais preciso neste dia, fui encontrando o caminho, por entre algumas árvores caídas, até chegar por fim no trecho final da trilha, este já mais aberto e com uma corda que foi bem útil para o retorno em certo ponto. Ao chegar no rio foi questão apenas de determinar a melhor maneira de chegar até próximo á extremidade sem se arriscar e fazer algo estúpido, já que por um lado o rio tinha em boa parte da sua largura vazão suficiente para jogar-me da queda em menos de 5 segundos, e a plataforma de rocha na lateral, por mais que cheia de agarras e bem seca, era um tanto exposta. Sendo assim, oque me importava era ter um ponto para levantar o drone, e no máximo algum lugar para esticar o braço com a GoPro. Por maior e o quão bonita fosse a cachoeira, não me impressionou muito, já que os relatos que falavam sobre a sua altura davam a impressão de que ela seria ainda maior. Mas a qual mais me impressionaria era a próxima e a última deste domingo.
 Desci a serra sentido Joinville, para chegar no chamado "Recanto Nascentes Divinas" de onde parte a curta trilha (cerca de 800 metros) até a Cachoeira do Rio da Prata. O local familiar é muito frequentado nos finais de semana, com um ambiente impressionante situado em meio ao vale. A entrada custou 10 reais, e como já eram passadas das 15h (e lá fecharia ás 16h) tratei logo de pegar a trilha. Ritmo forte durante a maior parte do tempo, quando de repente a trilha passa a ser uma longa e exaustiva subida rumo a quase metade da impressionante altura da cachoeira. Confesso que estava um pouco cansado para subir bem este trecho e por mais curto que fosse o trajeto foi cerca de meia hora para chegar ao final. Estranhei a aparência de um certo abandono do percurso, sobretudo no final, que na hora associei com a temporada para justifica-lo. Ao chegar na cachoeira, a primeira coisa que eu percebi foi a exposição á quedas que havia ali, nada que não pudesse ser feito, mas do tipo de lugar com a facilidade e a exposição de um lugar com histórico de fatalidades. Mesmo sem ir na ponta dava para ter a noção de que dali não haveria lugar abaixo que poderia minimizar a força e a altura do impacto. Ao terminar a trilha, o trecho um tanto fechado do final fez sentido quando uma das proprietárias que me perguntou como foi a minha estadia ali me informou que na verdade o acesso até esta cachoeira está proibida á cerca de um ano, quando uma jovem de 18 anos que já frequentava o local acabou perdendo a vida naquele exato ponto. Não muito tempo antes, outro jovem, de Curitiba, também havia morrido ali. O segundo caso foi oque bastou para eles "interditarem" a trilha, dizendo ela que havia uma placa de que é proibido o acesso (não havia, ou no máximo eles não sinalizaram bem pois no trajeto que segui pelo tracklog realmente não havia, nem quando o caminho unificava-se, onde faria sentido haver outra placa), mas sem tom de repreensão. A cachoeira é bonita e é certamente uma pena a situação que o acesso encontra-se, mas é especialmente por drone que se tem noção da absurda extensão da queda, tanto para cima, tanto para baixo daquele ponto.