
A primeira experiência com o Pico Ciririca, cerca de um mês antes desta, foi a pior possível, e já relatada aqui. O final de semana prolongado do Dia do Trabalhador oferecia uma boa janela para tentar novamente a travessia circular conhecida como "Ciririca por baixo e por cima" que consiste em percorrer sua trilha original passando por pontos conhecidos como Cachoeira do Professor e o Última Chance, e depois retornar por uma trilha que o liga com cumes como o Luar, Tucum e Camapuã, entre outros. Tudo pronto para tirar isto e outros nomes da lista, mas não sem antes pagar alguns pecados.
Acompanhado de um nobre - porém careca - amigo, iniciamos o percurso na primeira hora da manhã do domingo. Já sabia que a previsão para a manhã em Campina Grande do Sul e Antonina era de céu nublado que perduraria até o começo da tarde, onde então era prometido um clima limpo que duraria alguns dias. Além da rara intenção de acampar, fomos preparados para imprevistos, principalmente com muitos agasalhos bem protegidos da umidade dentro das mochilas. Mas pegar uma leve chuva desde a primeira hora de trilha até o cume era algo que eu torcia para não ser realidade. Repetiria o aperto de poucas semanas antes, quando após as longas horas de sobes e desces da trilha de baixo, já chegaríamos bem molhados até o trecho com cordas, ainda que com capas de chuva, quando lá em diante, por conta da vegetação mais dura de altitude que encobre a trilha, ficaríamos encharcados de vez. Dito e feito, com o meu colega já deixando clara a sua intenção de fazer o cume e voltar no mesmo dia, temendo um clima assim para ambos os dias, além de chuva e frio. Eu não estava com calor, mas perto do que passei na vez anterior, eu sinceramente estava até confortável se tratando de temperatura... Já no começo da trilha ele ainda havia apostado dez reais de que não veríamos o tempo melhorar durante todo o dia, tamanho era o seu pessimismo. Eu, apesar de não gostar de estar repetindo o perrengue, sabia que as circunstâncias melhorariam.
E elas foram melhorar logo á menos de 100 metros do cume do Ciririca. Foi quando as nuvens passaram á se dissipar, e quando a vegetação rasteira do cume passava á brilhar conforme o céu azul passava á dar as caras. Ao avistarmos as antenas pouco após o cume, meu colega já admitia seu iminente prejuízo, embora recusei o dinheiro da aposta diante da imaterial felicidade de não ter outra penosa ascensão sem poder ver sua paisagem. Quando chegamos na segunda antena, e nos demos conta de que não havia mais ninguém naquele dia por lá, podendo ter a melhor área do camping, a mais próxima da segunda antena, só pra nós. Mais tarde revelou-se a visão por completo, permitindo-me ver os Agudos e as demais montanhas do setor sul, que tinha muita curiosidade em ver pessoalmente e de mais de perto.
Após um pôr do sol espetacular, e uma noite lenta de insônia como geralmente são meus acampamentos, acordamos pouco antes do nascer para deixar tudo organizado na barraca. Já de cara levo um susto ao encontrar nas coisas do meu parceiro uma aranha, das grandes, e da mesma espécie que encontrei na mochila de outro amigo na vez anterior no Ciririca. Eu havia checado as minhas coisas antes de coloca-las pra dentro, coisa que ele deve ter esquecido desta vez. Apesar de aparentemente se tratar de uma aranha inofensiva, foi um susto enorme considerando o seu tamanho e o tamanho da barraca onde havíamos passado as últimas 12 horas.
Nascer do sol de qualidade e bons papos com um pessoal que chegou no cume no começo da noite e foi nosso vizinho de camping, um grupo de montanhistas de várias cidades de Santa Catarina que acabara de passar por 2 tenebrosos dias de chuva na travessia do Marco 22. Partimos e próximos ao cume do Ciririca, olhando para trás aquelas placas, a sensação foi de plena satisfação. Era hora de seguir adiante e a vista para o Luar prometia um dia de trilha bem mais constantemente recompensadora do que o anterior.
A bifurcação que separa as trilhas de baixo e a de cima é bem perceptível (lembrando que existe uma outra mais antiga, que liga o Última Chance ao Siri), uma breve dúvida quanto a direção da trilha pouco adiante, mas facilmente resolvida. Dali em diante, trilha boa, um pouco fechada ainda em maior altitude devido ao tipo de vegetação, mas após isso revela-se uma trilha boa. Caminha-se em direção ao primeiro cume do dia, chamado Cerro Caraguatá, um morrinho tranquilo de subir, com uma visão no cume um tanto limitada. Inicia-se a breve descida até o vale para o próximo cume, o Siri, com um breve trecho de caminhada mais plana entre eles. A subida é como a anterior, talvez um pouco maior, mas novamente fácil. No cume há algumas grandes rochas, com um tipo de túnel abaixo deles, onde é possível subir até um mirante pequeno mas que serviu para uma breve pausa, e de onde dava para observar melhor a principal subida daquela manhã, sentido Luar. Ao descer para seguir o caminho, não encontrávamos o caminho logo após ele, quando percebemos que era necessário contorna-lo pela esquerda, e não pela direita, para achar a trilha, que seguia bem aberta.
Neste vale seguinte fica também a ligação com o Última Chance, embora não parei para procura-lo. É também o trecho coberto mais bonito da travessia, com as árvores formando um espetáculo a parte. Após atravessar alguns riachos, deve-se seguir atenção com as fitas e com o tracklog que estiver utilizando, pois em certo ponto uma trilha bem aberta leva até um perdido em direção á um descampado mais alto que existe ali perto, que observei apenas por satélite, pois antes gradualmente a trilha vai se fechando, quando suspeitei e percebi o erro no celular. Outros tracks seguem o mesmo engano.
Voltando a trilha correta, não demora muito para sairmos nos primeiros trechos descobertos. Por satélite percebe-se alguns curiosos traçados que não fazem muito sentido, indo em direção leste e desviando-se do caminho do Siri. Suponho que talvez sejam traçados feitos e repetidos por engano por quem descia do Luar sentido Ciririca, talvez distraídos ou sem visibilidade, que acabaram se tornando bem abertos. As paradas eram constantes, mas o cume que parecia bem distante até que não demorou tanto para ser alcançado. O Luar possui uma caixa de cume e uma vista bacana para o Meia Lua, Cerro Verde e Tucum, mas principalmente para o Cerro Minguante/Ovo de Dinossauro, que seria nosso próximo objetivo, após uma parada para o almoço. Após fazer algumas filmagens e ao tentar pousar o drone na mão como de costume, por um erro bobo acabo enfiando o dedo indicador em uma das hélices, bem no oposto da unha, gerando um corte pequeno, mas uma dor enorme.
Não demora para chegar ao cume do Minguante, por onde a trilha obrigatoriamente passa. É uma opção ir até o seu cume bem próximo dali e com trilha aberta, onde se tem uma visão próxima do famoso Ovo de Dinossauro ou Pedra do Coiote, que chama tanto a atenção de quem está entre o Tucum e o Cerro Verde.
A descida do Luar sentido Tucum é um trecho onde aquela vegetação mais dura está mais presente, e as vezes com uma descida um pouco mais íngreme, mas trata-se de um curto trecho. Vale citar que meu objetivo inicialmente não passaria por ali, mas sim pelo cume do Meia Lua (cuja trilha pouquíssima frequentada, porém possivelmente fitada, se iniciaria no vale entre o Cerro Minguante e o Luar) e talvez indo até o Cerro Verde, porém sabia que meu colega não estava interessado e eu também estava um pouco cansado, mais pela mochila que eu usava não ser minha e estar começando a incomodar. E como eu sabia que logo eu faria a Travessia das Fazendas e poderia incluir ambos cumes neste roteiro, como fiz duas semanas depois. O trecho entre o Cerro Minguante e o paredão do Tucum acabou sendo um tanto chato, com constantes subidas e descidas. Pelo menos deu para repor o estoque de água entre a água mais fluída que passa nos dois últimos vales antes da trilha se juntar com a que vai com o Cerro Verde.
Foi bacana rever aquele subidão do Tucum, e relembrar como ele é bem melhor de subir do que é de descer. Não demora tanto quanto parece, e logo caminha-se sob o "lombo" do Tucum antes de mais uma subidinha final. Vendo dali a distância entre nós e o Ciririca, rimos tamanho o quanto que havíamos andado naquele dia, embora há quem também faça esse percurso de ataque, como até era minha intenção no passado, mas que certamente seria sem aproveitar tanto quanto estávamos aproveitando. No cume do tucum, também estávamos mais em casa do que nunca. Descer o Camapuã pelo Camacuã só não é melhor porque a impressão é que se desce muito mais do que pelo caminho tradicional, mas ainda foi uma boa escolha para fechar bem esta tão aguardada travessia.



















































