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Pedra Queimada

  A parte teórica de conhecer os morros e montanhas, á princípio paranaenses, na frente do monitor antes da presença em campo já pareceu concluída muitas vezes até aparecer algo que cria uma necessidade inesperada e empolgante de ascensão. A comunidade montanhista que busca esse tipo de local mais específico conhece, mas é notável que é um pico mais discreto, tão discreto que passou á ser despercebido por muitos anos. Quando alguém publicou em um grupo de trilhas paranaenses uma paisagem que parecia ser a Baía de Paranaguá, a BR 277, e uma pessoa subindo uma rocha com uma corda fixa, não fui o único á ir perguntar qual seria o local.
 No Wikiloc, onde o Pilão de Pedra e o Pico X ficram repletas de novas marcações durante os primeiros meses da pandemia e deixaram de ser locais reservados á alguns montanhistas mais devotos destes santuários (e com razão), o mesmo não se refletia na Pedra Queimada, que na minha vez, não possuía nenhuma marcação clara, já que estavam incompletos e ainda começavam em pontos diferentes, além de poder contar nos dedos de uma mão. A informação que me foi passada não ia muito além da duração da trilha, e assim mesmo optei por ir com meus colegas para uma trilha um tanto longe daqui e com um roubo lícito no pedágio e que confiei na marcação do wikiloc que mostrava onde a trilha começava e citava ser propriedade particular de uma senhora. Chegando lá, felizmente a mesma estava no quintal, e ao perguntar se a trilha para a tal Pedra Queimada começava lá, ela confirmou e disse muito gentilmente que permitiria o acesso. Dia ganho, mas não por parte do clima, bem nublado e com muita neblina mesmo já ás 10 horas da manhã, impossibilitando a visualização da montanha e nos comunicando que a expectativa de ter alguma visão no topo era em vão.

 Além disso, como uma trilha sem mais de uma marcação para torna-la mais confiável, sem garantia de que a trilha não estaria bem fechada ou repleta de bifurcações, só restava mesmo a confiança no espírito de aventura e um certo grau obrigatório de imprudência e de entrega nas mãos dos poderes superiores.
Mas não existe tracklog mais eficaz do que oque nos foi concedido. Um dos diversos cães da propriedade nos acompanhou com vigor e entusiasmo durante toda a trilha, mesmo que essa estivesse bem mais aberta do que eu esperava. Uma trilha bem demarcada com quase nenhuma bifuração relevante (apenas uma á direita, antes da metade do trajeto) e a trilha seguiu sem grandes perdidos. Porém a grau de elevação aumenta e após a metade surgem trechos muito úmidos, com diversas árvores caídas, pedras lisas e outros obstáculos, que demandam muita atenção principalmente para a existência de animais peçonhentos, mas que felizmente foram bem ultrapassados. O cão-guia não apenas nos acompanhava pela trilha mas diversas vezes cruzava o mato com confiança mesmo na direção mais improvável vindo á nos encontrar muito tempo depois nos aguardando em algum ponto de água, visivelmente já tendo feito á trilha até dormindo. Lembrando que esse tipo de ambiente não é o mais adequado á um cão ainda mais do porte deste que nos acompanhou, que embora dócil com certeza deveria possuir instintos de caça bem apurados, mas que não estava sob o nosso controle.
A trilha ia sem quase nenhuma janela de visão mas estava evidente que clareava enquanto ganhávamos altitude, aumentando as expectativas. E de repente, ao contornar-se uma grande rocha, chegamos á um ponto onde várias fotos na rede davam destaque, uma janela formada pelas rochas que chamava muita atenção, á apenas alguns metros dali uma área de camping que infelizmente possuía não apenas muito lixo mas ainda indícios de fogueiras. E á apenas mais alguns passos, o cume, alcançado através da tal escalada na corrente e que era uma grande rocha. A neblina impossibilitou a visualização do restante da Serra da Prata do qual este local faz parte, e nem da Serra das Canavieiras ao lado. Mas o mais importante, que era a BR-277, a Baía de Paranaguá e a cidade de Paranaguá era visível. Com sua experiência o cão-guia escalou a pedra com uma facilidade de humilhar até os pássaros em volta. Havia uma caixa de cume, em que o livro tinha pouquíssimas marcações, reforçando o quão escasso era a visitação de montanhistas nesse local. 

Na descida, devido á falta de raízes e um bom aspecto geral da trilha, o freio motor do corpo não colaborava e era difícil manter um ritmo mais controlado na velocidade, mas percebemos que precisávamos segurar um pouco mesmo que isso exigisse um pouco mais das pernas. Mas em um "acelero" eventual o colega Gustavo se enfiou legal em um buraco fundo entre duas árvores espinhentas em uma curva que ele passou reto e sem freio, e que por sorte não chegou á segurar muito nessas árvores ou ir de frente nelas, nem mesmo ter encontrado alguma cobra ali. Teve que ser puxado pelos braços e com muito esforço. Essas árvores repletas de grandes espinhos são observadas já na subida e por tanto há um cuidado com elas, mas porém por não se tratar de uma subida muito exigente, o uso de apoios não é muito requisitado. Mas na descida o ganho de velocidade o obriga á segurar as vezes em árvores para ajudar á freiar, aí evidenciando muito a quantidade dessas árvores na trilha. Outra coisa que chama muita a atenção são as árvores de aspecto avermelhado que se destacam muito no meio das outras, sendo o único lugar em trilhas que eu encontrei tal espécie.

Atualmente a trilha possui mais marcações no Wikiloc e faze-la está mais simples. Mas é preciso consciência dos montanhistas para que tal acesso não passe á ser restringido. Portanto é necessário autorização da proprietária além dos cuidados ambientais quanto ao seu lixo e que não sejam feitas fogueiras. 

Percurso: Aproximadamente 9km (completo)
Tempo: Em média 3 horas para ida e 2h de volta, lembrando que pode haver grandes variações
Local: A Pedra Queimada pertence á serra da Prata, ou acesso se faz pela Chácara da Dona Inês.
Recomendação: Repelentes, perneiras, lanternas, tempo de sobra. Com certeza muitos carrapatos dependendo da época, então use calças e camisas longas. Embora tenhamos pegado a trilha com um bem demarcada garanto que em outras épocas (fomos no inverno) a situação vai mudar muito. De carro, o acesso á estrada de chão mais adequado é pela Rodovia 277, pela entrada do lado oposto ao Materiais de construção Garaúna
Custo: 15 reais (por carro!) ou mais uma contribuição para a proprietária da chácara por ter permitido o seu acesso e pela grande simpatia dela. A mesma me informou que o seu pai que havia aberto a trilha e ela foi a primeira mulher á subir. Lembre-se que esse é o valor que foi pago na minha vez e está sujeito á mudanças.
Dificuldade: Média de navegação, sem escaladas técnicas mas o aumento gradual da elevação torna ela um pouco cansativa
Altitude: 767 Metros. Início da trilha á aproximadamente 30 metros de altitude.

Pedra Queimada visto da BR 277. Observa-se o motivo para o nome


Pedra Queimada vista da Chacará da Dona Inês. Foto extraída do Tracklog do usuário Arnaldo P Jr

Foto extraída de grupo do Whatsapp compartilhada pelo usuário Caius Marcellus


Começo da trilha

Cão-panheiro