Pular para o conteúdo principal

Caminho do Itupava

 Um indivíduo está sujeito á se tornar um fiel frequentador do mato paranaense ao menor contato físico com os cartões postais da nossa região. É como nas drogas, ninguém começa no crack, vem primeiro o melhoral infantil, o cheiro de alcool no papel do mimeógrafo na escola, e quando você vê você está se prostituindo para comer x-burguer.

 O Caminho do Itupava foi a minha primeira trilha na Serra do Mar Paranaense, uma região que eu menosprezava ao ouvir falar de sua natureza. Após ter viajado ao Rio de Janeiro duas vezes com intuitos de começar o montanhismo, uma falta de perspectiva me cegava ao fato de que no quintal de casa estava simplesmente uma das maiores abundâncias de experiências ou pelo menos a com maior relevância histórica e comunidade ativa do Brasil neste âmbito. Realiza-la foi a porta de entrada para um vício mais caro que dormir até tarde no domingo e mais barata que sessões semanais com um psicólogo.
 Muitos anos atrás em um período um tanto mais atlético recusei diversas vezes os convites para o Itupava, até que após um longo silêncio e um chamado em meio á um período em que minha depressão começava á diluir-se em um sentimento mais neutro, aceitei e fui da casa da minha meritíssima namorada até ao terminal Guadalupe em Curitiba, antes do sol nascer. Estando lá nesse local e hora, eu só correria mais risco nesse dia se uma Jararaca armada com uma pistola me estuprasse na trilha naquele mesmo dia. Fui já acompanhado do meu atrasadíssimo colega Julian e lá o resto dos marmanjos se encontraram, por minha parte estava também o meu tímido colega Alisson D. aquele que no passado era quem me convidava para a mesma trilha. Quem já pegou o ônibus do Guadalupe ao posto do IAP Quatro Barras sabe que existe uma rota de aparentemente 500km que separa um ponto do outro, dada a quantidade de locais que esse ônibus para antes de despejar os passageiros, compostos completamente de montanhistas nos domingos de manhã, na localidade de Borda do Campo, onde nos dirigimos até o trailer do IAP para declarar nossos impostos, intenções e telefones de emergência.
Daqui em diante eu não narro e compartilho imagens da minha primeira ida ao Itupava em 2017, mas também a minha segunda vez em 2020. Já deixo claro um importante e polêmico detalhe: Em ambas as vezes a trilha foi feita através do trilho do trem após a Casa do Ipiranga. A primeira vez porque fui guiado por um amigo e não tinha conhecimento sequer da existência da proibição, e a segunda por simplesmente não acreditar que a proibição existe além de como uma advertência de "a proibição existe, quem faz assume o risco". Na primeira vez que fiz a trilha simplesmente achei que estava fazendo a popular trilha do Itupava, e na vez segunda a intenção foi ter novamente aquela experiência e não conhecer o caminho do Itupava tradicional. Estarei explicando melhor adiante.

  Itupava for dummies

 Entre as trilhas históricas que ligam o litoral Paranaense ao planalto, o Itupava é o mais popular e "conservado", indiscutivelmente o mais frequentado e até um certo trecho um dos mais farofados. O Itupava não é o único nem o primeiro acesso da costa ao planalto, existindo também o Caminho do Arraial, mais antigo porém pouco preservado, a Picada do Cristóvão que liga também á trilha da Janela da conceição, o Ambrósios e claro, a estrada da Graciosa. Ela foi aberta entre 1625 e 1654 por indígenas e mineradores e teve um calçamento de pedras feito por escravos, este que atualmente se encontra permanentemente liso devido ao limo e que é responsável pela maior parte dos desequilibrios dos frequentadores. O Itupava era a principal rota entre para circulação de pessoas e mercadorias até á conclusão da Estrada da Graciosa em 1873 e da estrada de ferro Curitiba - Paranaguá em 1885. A sua trilha da maneira tradicional inicia-se á uma altitude de 990 metros em Borda do Campo - Quatro Barras e termina em uma altitude de aproximadamente 30 metros no distrito de Porto de Cima em Morretes, por cerca de 25km, que em média costuma ser realizado em 5 á 8 horas em um ritmo tranquilo, dependendo muito do tempo em que se explora alguns de seus principais pontos. A entrada da trilha se dá por um trailer do IAP - Institudo Água e Terra do Paraná, na mesma rua onde mais acima se localiza o começo da trilha do Morro Anhangava.


 Após poucos minutos chega-se á uma grande área aberta, e depois á trechos onde se caminha acima de troncos com corrimões de madeira, uma estrutura adequada ao cenário e que mantém a proposta de se afastar do tato no metal habitual. A trilha então começa a ganhar um pouco de inclinação mas nada que já custe o folêgo, ao ponto que as árvores acima começam á garantir mais sombra. E entre elas fica visível que um morro recheado de pedras e de aparência dócil á direita da trilha começa á ser contornado, esse sendo o também popular Morro Pão de Loth, irmão caçula do Anhangava, um pouco menos frequentado e por isso um pouco mais adequado para os introvertidos. Ali em diante se encontra também uma pequena caverna á esquerda da trilha, mas nada que mereça muito do seu tempo.









 E após atravessar uma bela ponte pênsil e um ganho mais significativo de elevação chega-se á um portal de madeira que revela o primeiro "achado arqueológico" do Itupava, que infelizmente se tornou arqueológico não pelo tempo, mas pelo árduo desserviço dos frequentadores das últimas décadas que garantiram que nada sobrasse daquela belíssima casa além da sua estrutura, ou para ser mais exato, de metade da metade da sua estrutura. Como bem claro diz a colunista Maruza Silvério no site Alta Montanha:

 "A Casa Ipiranga faz parte da história da ferrovia que liga Curitiba a Paranaguá, no litoral do estado. Cercada pela mata atlântica e a apenas 50 metros do Caminho do Itupava, ela foi construída quatro anos após a ferrovia. A casa serviu como residência da família do Engenheiro Bruno Rudolf Lange e hospedou visitas ilustres da época como o Chefe Geral das obras, João Teixeira Soares, e o pintor, Alfredo Andersen. 

 Construída em alvenaria e estilo colonial inglês, a casa era considerada de alto padrão para época, e contava inclusive com uma roda d’água e uma usina hidrelétrica para gerar energia para seus moradores e visitantes. Também havia uma piscina, sala de jogos e confraternização, lareira e banheiros internos. Em 1996, a casa deixou de pertencer a Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA) e começou a ser depredada. Após um arrombamento e um incêndio ocorrido nesse ano, ela foi abandonada e atualmente esta em ruínas."















 Em frente á casa está a ferrovia e a continuação da trilha, mas geralmente ali a próxima parada fica logo á direita onde ao caminhar poucos metros sobre os trilhos chega-se á roda de água onde grandes piscinas são recheadas de moradores da região nos domingos nas épocas mais quentes do ano, e onde alguns também acampam embora não seja permitido. Retomando os trilhos, nas árvores á sua direita existe a continuação da trilha original do Itupava, indicado para aqueles que desejam efetuar o mesmo caminho que por mais de 200 anos foi o principal acesso da Costa até o Planalto e possibilitou o crescimento de tudo oque conhecemos na nossa capital e região metropolitana, e se seguir o caminho do trilho do trem, passará as próximas horas exposto ao sol e tendo que atravessar diversos túneis em que transitam os frequentes trens de carga, além de pontes onde a altura da parte inferior fica evidente enquanto você caminha sobre elas, além de ser o caminho proibido e sujeito á multas caso seja flagrado. Por outro lado, é evidente que seu caminho é popular dada ás diversas paisagens e estruturas que se encontram á beira da estrada de ferro. Não sei ao certo dizer se o caminho original ou o do trilho é mais frequentado, mas nas minhas experiências o caminho foi sempre bem frequentado, especialmente na de 2017, em que observei diversos outros grupos descendo a trilha. Esteja avisado quanto á chance de acidentes, especialmente devido áo trafego dos trens fazendo com que túneis e pontes precisem serem percorridos sem distrações, á exposição do sol em dias de céu aberto, ao risco de quedas em pontes especialmente no viaduto do carvalho, á imposição de multas em caso de flagrante pelos órgãos responsáveis e também á de animais peçonhentos mesmo ao redor da trilha do trem, que eu mesmo já encontrei alguns, embora todos esmagados pelos trens.







Estes animais se recusaram á obedecer ás regras de visitação da trilha do Itupava e pagaram um preço alto por isso.


Outro animal visto violando as regras de visitação do Itupava, de nomenclatura científica Farofeirus NhecNhecs. Geralmente de hábitos noturnos.


Algumas elevações vistas da linha do trem

Descida para a Roda de Água

Roda de Água












 Apesar de ser uma longa caminhada, o tédio é anestesiado frequentemente já que diversas construções acompanham a linha do trem. As mais notórias delas são a Represa Véu de Noiva, e as ruínas da estação de mesmo nome, e o Santuário Nossa Senhora do Cadeado, onde muitos frequentadores costumam acampar. Esse é um ponto onde a trilha original do Itupava passa, ou seja, a partir dali, se for de seu interesse você pode continuar pela trilha original ao invés da linha férrea. Após o Cadeado também chega-se á Ponte São João.




Elevações vistas ao redor da represa Véu de Noiva




Represa Véu de Noiva


Ruínas da Estação Véu de Noiva


"Pinturas rupestres"


Pequeno túnel alcançado subindo uma das paredes laterais de um dos tuneis da linha férrea



Santuário Nossa Senhora do Cadeado

Uma das vistas que mais atraem as câmeras durante a travessia

Pico Marumbi visto do Santuário Nossa Senhora do Cadeado

Pico Marumbi

Viaduto do Carvalho, provavelmente o ponto mais aguardado da travessia, em que novamente a memória disponível dos celulares e câmeras é drasticamente reduzida

Viaduto do Carvalho na minha segunda ida, nesse horário o clima ocultava a vista anterior da Serra da Farinha Seca



Chegada a estação Marumbi, erroneamente considerado final do trajeto...


 Após a chegada á Estação Marumbi, ponto onde se inicia a escalada da popular montanha, descemos rumo ao IAP de Porto de Cima, através de uma trilha com calçamento de pedras, atravessando 2 linhas de trem, e caminhando por quase meia hora uma estrada de chão por onde passam apenas carros altos e com tração adequada. Ao chegar no IAP e avisando o responsável do término da sua trilha, á não ser que algum veículo te aguarde nesse local, você deve continuar caminhando por até meia hora até a ponte de ferro de Morretes á não ser que consiga carona ou pague algum dos moradores, sendo que optemos da segunda vez pagar ao responsável pela Kombi que leva os turistas para descer o rio de boia-cross para nos levar até o terminal de Morretes. Lá infelizmente das duas vezes perdemos nossos ônibus e optemos por pagar um taxista com uma Chevrolet Spin com 7 lugares para que nos levasse de volta para Curitiba, ficando assim um preço mais tolerável para todos e não ter que esperar tanto até que o próximo ônibus chegasse.

  Eventos notáveis

 O caminho do Itupava, assim como o Morro do Anhangava, por receber dezenas de milhares de visitantes todos os anos, tem lá suas histórias. A quantidade de pessoas sem experiência que buscam um passeio um pouco mais ousado na natureza abre chance para o risco de acidentes, ao mesmo tempo que atrai indivíduos para a pratica de diversos crimes. 
 Em fevereiro de 2020, uma mulher de 26 anos foi resgatada após se jogar de uma altura de 30 metros do viaduto do carvalho para não ser atropelada pelo trem. Ela possivelmente pulou na lateral pois não ouviu o trem vindo, e mesmo que talvez estivesse próxima á uma plataforma para que ficasse e esperasse o trem passar, no desespero deve ter se jogado na lateral rochosa vindo á rolar á baixo os 30 metros de altura. O Cosmo - Corpo de Socorro em Montanha efetuou o resgate e informou que ela teve múltiplas fraturas, e foi levada para um hospital em Paranaguá. A empresa que administra a ferrovia afirmou em nota que o maquinista adotou os procedimentos de segurança, acionando buzina e freios de emergência.
 Resgates de acidentes são bem comuns na cachoeira da roda de água e também na cachoeira véu de noiva, próxima á estação e represa de mesmo nome. Em 2018 uma matéria da Ric TV noticiou dois acidentes, ambos envolvendo traumatismo craniano. 
 Em 2017 uma mulher de 33 anos foi resgatada após ser atropelada por um trem enquanto tentava tirar uma selfie. Segundo o Gost - Grupo de operações de socorro tático, a mulher estava de costas para o trem e muito perto dos trilhos, e não percebeu que o veículo possuia barras de ferro nas laterais que se estendiam até o local em que ela estava. Uma das hastes atingiu com força na parte inferior do crânio e a arremesou para longe. A mulher foi resgatada e encaminhada para um pronto socorro em São José dos Pinhais.
 Um caso chocante é o da morte do montanhista Renato Rafael Coldibeli, de 39 anos, que foi encontrado morto após 12 dias de busca no Caminho do Itupava. Renato foi visto pela última vez quando teve um desentendimento com funcionários do posto de controle do IAP, quando resolveu adentrar na trilha sem realizar o cadastro. O corpo foi encontrado próximo á um rio, perto da estação Véu de noiva. De acordo com relatos de pessoas próximas, ele sofria de depressão á algum tempo. Não está claro se a morte foi devido á um acidente ou á um suicídio. 
 Em 2002, um dos crimes mais macabros da região envolveu o estupro e morte de duas adolescentes, durante o feriadão de Carnaval. Os corpos das duas garotas de 16 e 18 anos foram encontrados no meio da mata fechada, já em avançado estado de decomposição. Dois rapazes, os mesmos que foram acampar com as garotas, foram presos.
 No mesmo ano, um morador de Araucária encontrou um rapaz de aproximadamente 18 anos foi morto com 2 facadas, uma na cabeça e outra na virilha, e um tiro no peito. O crime não foi bem esclarecido, já que apesar de estar com a mochila vazia, e sem documentos nem carteira, ele estava com sapatos caros de montanhismo e um relógio de qualidade, segundo a polícia. O crime foi dias após dezesseis detentos terem fugido da cadeia de Piraquara. A teoria é que o rapaz tenha sido assassinado por outros motivos que não o assalto, tendo o corpo tendo ficado de bruços, e com a mochila exposta, o rapaz mesmo morto tenha sido roubado por outro indivíduo que não teria avisado a polícia do corpo. 
 Há até mesmo um vídeo no Youtube de um grupo de jovens no Itupava quando um homem armado chega e atira para cima anunciando o assalto
 Outro vídeo que chama a atenção é a de um homem pendurado no trem enquanto ele se move por cima de uma das pontes da travessia
 Em outro vídeo ainda mais impressionante alguns jovens ficam presos á beira da linha do trem por, segundo eles, não terem ouvido o trem chegar e sendo obrigados á ficarem na beira da ponte, entre o trem e a queda. 
 Mas sem sombra de dúvidas, o incidente mais polêmico do Itupava foi um desaparecimento. Não um desaparecimento com um final trágico, mas justamente um em que a vítima foi localizada. Em Agosto de 2010, a montanhista Denise Ciunek desapareceu por 17 dias em uma suposta ida ao caminho do Itupava. Segundo Denise, ela foi atacada por um homem armado que tentou violenta-la, e após ela desferir um golpe, fugiu mata adentro, vindo á se perder. Denise teria se alimentado por uma semana apenas com o lanche que teria levado aquele mesmo dia para a trilha e passou mais 10 dias bebendo apenas água. O resgate envolveu mais de 60 socorristas, além de voluntários e cães farejadores. Ela foi encontrada num local próximo á estação ferroviária Véu da Noiva. Ao ser resgatada e encaminhada ao hospital, ela foi internada em uma UTI devido á hipoglicemia e á desnutrição. Ao ser entrevistada, Denise disse que não deixaria de fazer montanhismo, mas que o deixaria de ir ao Itupava, alegando que o local é perigoso e abandonado. Leia oque diz a matéria no site Alta Montanha:

 O gerente do parque 
Morumbi Lothário Horst Junior, conhecido como Kiko, amigo de Denise há 25 anos. que ajudou nas buscas, afirma que os montanhistas devem evitar caminhos alternativos e pouco seguros, e fazer o cadastro no escritório regional do IAP, no bairro da Borda do Campo, em São José dos Pinhais, antes de iniciar a trilha. Ali são registrados o nome e o telefone do montanhista e de um familiar, além do trajeto que deve ser seguido e o horário de retorno.

 Julio César Fiori, figura conhecida do montanhismo Paranaense, escreveu em seu ótimo livro Montanhismo de fim de semana - Diáspora, sua opinião á respeito dos fatos ocorridos com a Denise. Ele constata que Denise, montanhista experiente, conhecedora do caminho do Itupava, amiga do proprietário de casas de montanhas ao pé do Marumbi conhecido como "Rolando Freezer", integrante e fundador do Grupo Cosmo (Corpo de Socorro em Montanha), defensor do programa "Aventura Segura" promovido pela ABETA, amiga do gerente do Parque Estadual do Marumbi que declarou conhecê-la a 25 anos e de muitos outros voluntários que participaram das buscar. Fiori continua esclarecendo seu ceticismo: "Também constatou que segundo ela mesmo havia afirmado, afirmou no IAP estar com uma barraca, apenas por precaução porque pretendia retornar no mesmo dia, mesmo confiante a ponte de percorrer a trilha sozinha no meio da semana, com tempo perfeito e estável, levou uma barraca na mochila para um caminho que com sua autoproclamada experiência e conhecimento é percorrido em menos de 6 horas". Ele também aponta incoerências na ordem cronológica dos incidentes, dizendo que a vítima tendo sido abordada logo no começo da trilha, terem andado "por um bom tempo" e ter se passado apenas meia hora entre a abordagem e a fuga, ter alegado ter caído em um riacho que não conhecia, em uma área em que os riachos deságuam no Rio Ipiranga que é acompanhado de perto pela ferrovia. Fiori também sugere que o local onde ela foi encontrada, em relação com a região onde ela parece sugerir que houve o começo da fuga, teria deixado claro para ela sua localização, já que a ferrovia estaria no meio do trajeto. Em seguida ele também "elogia" a capacidade de sobrevivência com o racionamento da comida "Preparar-se para uma caminhada de pouco mais de 6 horas levando comida suficiente para se alimentar por 7 dias, mesmo racionando, é um feito digno de nota". 
 Denise disse que caminhou por quatro dias e depois parou a espera de resgate no exato local em que foi encontrada deitada sobre uma pedra a aproximadamente 3 quilômetros da estação de trem Véu de Noiva e á 500 metros afastada da trilha principal. Como Fiori critica, "Em 4 dias de caminhada dá pra fazer toda a travessia da Serra Fina ou ida e volta na Petro-Terê pela Serra dos Orgãos no Rio de Janeiro com uma cargueira de 25 quilos nas costas. Em 4 horas se faz o Itupava de ponta a ponta sem correr, mas admitimos que os perdidos andam em círculos, neste caso, bem pequenos porque em 4 horas "de joelhos" ainda se chegaria com folga ao rio e a ferrovia no vale a baixo ou na trilha acima. 

 E continua "Então o tempo quente e seco (dos dias anteriores) ameaça mudar de domingo para segunda com a previsão da entrada de uma frente fria, quando ela é convenientemente encontrada descansando sobre uma pedra." Mas um dos melhores pontos do artigo é que "Conforme atesta o Sargento Frederico Alberto Sobrinho 'O primeiro homem a encontrar Denise, primeiro localizou um estojo de óculos e, depois, a cerca de 10 metros distante, encontrou a vítima deitada em uma pedra, meio sonolenta, ele foi conversando com ela, até que ela admitiu ser a vítima' Admitiu?  Saliente-se que o primeiro homem a encontrá-la foi um montanhista, também proprietário de uma casa no Marumbi, presumivelmente conhecida da vítima e integrante ativo do Cosmo, cujo fundador, citado acima, durante as buscas alguns dias antes comentou com a imprensa sobre os riscos do Caminho do Itupava "O local tem o pior histórico de violência porque não tem policiamento nenhum e o cadastro realizado no posto do IAP, que fica na entrada e saída da trilha, funciona apenas para dados estatísticos"
Fiori teorizou que todas essas "coincidências" seriam uma oportunidade de "algum grupo de socorro em montanhas" ou "alguma empresa credenciada pela ABETA" solicita-se verbas estatais ou convênios para que assumissem a patrulha preventiva na região e que além do impacto ambiental, quando segundo ele em só um dos dias das buscas, mais de 52 integrantes varreram uma faixa de 100 metros para cada lado da trilha durante todo o percurso. "Dá para imaginar o estrago que fizeram em todos os lugares que passaram procurando rastros além dos outros grupos que se enfiaram nas grotas ao redor do Pão de Loth, do Cadeado, do Véu da noiva e até do Salto dos Macacos", e que o incidente impactou negativamente as famílias que dependem dos visitantes nas duas pontas do caminho. 

 Por fim, minha opinião sobre o caso é vaga pois dessa forma conheço muito mais a perspectiva do autor do livro do que da vítima e dos outros envolvidos. Mas, mesmo que os fatos narrados fossem distorcidos ou tendenciosos, preciso admitir que mesmo eu não conhecendo a região como eles, a forma que a Denise diz ter ficado dias parada mesmo tão próxima da linha do trem sem localiza-lo não faz o menor sentido, ainda mais para alguém acostumada com o trajeto. Ela estava literalmente no meio das duas trilhas, a original e a ferrovia, separada por apenas algumas centenas de metros que poderiam ser percorridos em minutos, além de que creio eu que os trens estavam operando facilitando ainda mais sua localização. Mesmo que ela teme-se encontrar o criminoso, não faria sentido ter aguardado todo este período chegando á se entregar para a morte por desnutrição ou por hipotermia tendo nem cogitado que os socorristas e voluntários já estariam na região á procura dela. 

Reportagem após ela ter sido resgatada

Vídeo do momento do resgate


 Diante de todos esses acontecimentos, é preciso tomar muito cuidado na trilha do Itupava, mas não de forma diferente de qualquer outra trilha ou local, afinal, o brasileiro infelizmente está sujeito em qualquer local. Se expor á riscos desnecessários enquanto transita pelos trilhos apenas piora a situação de quem escolhe transpor a travessia dessa forma, á ponto que em breve a mesma pode começar á ter fiscalização séria e a mesma experiência deixe de existir. Mas o fato de faze-la é por si, realmente, ignorar a lei da área e se expor aos riscos, então faça sabendo disso, ou faça pelo caminho habitual. Eu pretendo conhecer o caminho original o mais logo possível.

 Para um vislumbre muito bem resumido de fatos históricos do Itupava, recomendo este artigo